Uma inscrição antiga
Na antiga Grécia, uma máxima associada ao santuário de Apolo, em Delfos, atravessaria os séculos: “Conhece-te a ti mesmo.”
A máxima não foi criada por Sócrates, mas adquiriu especial importância em sua trajetória filosófica.
Em um dos diálogos de Platão, o Fedro, Sócrates recorda essa inscrição e reconhece que ainda não conseguiu conhecer verdadeiramente a si mesmo.
A observação é surpreendente. Afinal, como alguém dedicado à busca da sabedoria poderia admitir que ainda não conhecia a si próprio?
Essa atitude permite compreender uma dimensão importante da investigação socrática: conhecer a si mesmo não é uma conquista simples, mas uma tarefa que exige reconhecer os próprios limites.
O que julgamos saber
Outro episódio, narrado por Platão na Apologia de Sócrates, ajuda a compreender essa atitude.
Certa vez, Querefonte, amigo de Sócrates, consultou o oráculo de Delfos para saber se existia alguém mais sábio do que ele. A resposta foi negativa.
Intrigado, Sócrates procurou compreender o significado daquela declaração.
Passou então a conversar com homens considerados sábios, examinando suas opiniões e os fundamentos de seus conhecimentos.
Percebeu que algumas dessas pessoas possuíam conhecimentos em determinados assuntos, mas também acreditavam compreender questões sobre as quais não conseguiam demonstrar verdadeira sabedoria.
Sócrates, por sua vez, reconhecia os limites do próprio saber e procurava não afirmar como conhecido aquilo que desconhecia.
Essa atitude não significava desprezar o saber. Pelo contrário, era uma maneira de levar a busca da verdade a sério.
Reconhecer a própria ignorância podia ser o primeiro passo para investigar melhor.
Uma vida examinada
Para Sócrates, entretanto, a filosofia não se limitava à discussão de ideias abstratas.
Na Apologia, ele apresenta sua atividade filosófica como um convite para que as pessoas se preocupem não apenas com riquezas, prestígio e interesses materiais, mas também com a virtude e o cuidado com a alma.
Examinar a própria vida significava interrogar aquilo que consideramos verdadeiro, justo e valioso.
Por que defendemos determinadas opiniões? Nossas escolhas correspondem aos valores que afirmamos possuir? Estamos dispostos a reconhecer um erro quando encontramos razões para isso?
Essas perguntas traduzem, em linguagem contemporânea, preocupações presentes na investigação socrática.
O conhecimento de si não aparece, portanto, como simples contemplação da própria personalidade. Está relacionado à maneira como pensamos, dialogamos e conduzimos nossa existência.
Conhecer-se é uma tarefa contínua
É natural que construamos convicções ao longo da vida. Elas nos ajudam a compreender o mundo e orientar nossas decisões.
Mas também podemos nos apegar tanto às nossas certezas que deixamos de examiná-las.
A atitude socrática sugere outra possibilidade: reconhecer que podemos estar equivocados e que o diálogo sincero pode ampliar nossa compreensão.
Examinar nossas certezas não significa abandonar todas as convicções, mas reconhecer que elas também podem ser questionadas.
Conhecer a si mesmo, nessa perspectiva, não é encontrar uma definição definitiva de quem somos. É investigar aquilo que pensamos, os valores que orientam nossas escolhas e a maneira como vivemos.
Assim, a antiga máxima de Delfos continua a nos interpelar.
O que podemos descobrir sobre nós mesmos quando começamos a questionar nossas certezas e a maneira como vivemos?
Fontes e referências
- PLATÃO. Apologia de Sócrates, especialmente 20e–23b, 29d–30b e 38a.
- PLATÃO. Fedro, 229e–230a.
Imagem
Templo de Apolo, Delfos. Foto: Jebulon, CC0, via Wikimedia Commons.