Viktor Frankl — o sentido que nos ajuda a viver

Publicado em 3 de novembro de 2026

No livro Em busca de sentido, Frankl entrelaça testemunho e reflexão sobre a existência. Uma leitura sobre o amor, as tarefas e as responsabilidades que podem nos oferecer direção, mesmo diante de circunstâncias difíceis.

Retrato em preto e branco de Viktor Frankl, de óculos e jaleco branco, em 1965.

No livro Em busca de sentido, o testemunho de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas abre uma reflexão sobre os vínculos, as tarefas e as responsabilidades que nos chamam à vida.

Uma pergunta em meio à devastação

Durante uma marcha rumo ao trabalho forçado, Viktor Frankl pensa na esposa. Ele não sabe se ela ainda está viva. Mesmo assim, sua imagem o acompanha em meio ao frio e à violência.

No livro, essa lembrança integra o relato de uma experiência na qual quase tudo o que sustentava a vida cotidiana havia sido arrancado dos prisioneiros.

Psiquiatra e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, Frankl descreve a fome, a humilhação e a ameaça constante de morte. Ao mesmo tempo, procura compreender como, sob condições tão extremas, ainda podiam surgir gestos de solidariedade e motivos para continuar vivendo.

Seu testemunho não diminui a brutalidade dos campos. Tampouco permite explicar a sobrevivência pelo mérito ou pela força interior de cada pessoa. A violência do sistema e condições que escapavam à vontade dos prisioneiros eram decisivas.

A pergunta que atravessa o livro é o que pode sustentar uma existência quando suas possibilidades foram profundamente atingidas.

Um porquê para viver

Ao refletir sobre a importância de uma orientação para o futuro, Frankl cita Nietzsche:

“Quem tem por que viver agüenta quase qualquer como”.

O porquê assume, em seu relato, formas concretas. Pode ser uma pessoa amada, uma obra a concluir ou uma responsabilidade que ninguém pode assumir exatamente em nosso lugar.

Frankl recorda dois companheiros para os quais a vida parecia já não oferecer nada. Em suas conversas, emergiram possibilidades diferentes: para um, o vínculo com um filho; para outro, um trabalho intelectual ainda inacabado.

Esses motivos não removiam o perigo nem garantiam a sobrevivência. Mas podiam oferecer uma direção em meio à desorientação.

O sentido não aparece, assim, como uma explicação capaz de justificar o horror. Refere-se àquilo que ainda poderia convocar uma pessoa a responder à vida, apesar dele.

O que a vida espera de nós?

Frankl propõe deslocar o centro da pergunta: em vez de concentrar nossa atenção apenas no que esperamos da vida, reconhecer aquilo a que somos chamados a responder em cada situação.

Isso não significa que todas as pessoas tenham a mesma missão ou que exista uma resposta pronta para qualquer circunstância. Para Frankl, o sentido é concreto: relaciona-se à singularidade da pessoa e às possibilidades de um momento.

Na parte do livro dedicada à logoterapia, sua abordagem psicoterapêutica centrada no sentido, essa compreensão ganha uma exposição mais sistemática. O testemunho pessoal e a apresentação teórica se relacionam, mas são dimensões distintas da obra.

Frankl descreve três caminhos para encontrar sentido: realizar uma tarefa ou uma ação; viver uma experiência ou encontrar alguém; assumir uma atitude diante do sofrimento inevitável.

O sentido se descobre na relação com o mundo: numa tarefa a realizar, numa experiência significativa ou no encontro com alguém cujo valor reconhecemos.

O trabalho pode importar por aquilo que oferece ao mundo. O encontro amoroso pode revelar a singularidade de outra pessoa. A beleza, a natureza e a cultura também podem ser vividas como experiências significativas.

A busca de sentido alcança, portanto, a vida cotidiana, e não apenas suas situações extremas.

O sofrimento não é uma exigência

A terceira possibilidade exige cuidado especial.

Frankl afirma expressamente que sofrer não é necessário para encontrar sentido. Quando a dor pode ser evitada, a resposta significativa está em combater sua causa.

Sua reflexão se dirige à possibilidade de uma atitude diante daquilo que já não pode ser modificado.

Ao acolher essa reflexão, precisamos evitar que ela se transforme numa cobrança de serenidade ou heroísmo. A possibilidade de encontrar sentido não deve servir como medida para julgar a dor de outra pessoa.

Essa é uma orientação de nossa leitura: reconhecer os limites físicos, psíquicos e históricos da liberdade de resposta e preservar a responsabilidade de quem pratica a violência. Encontrar sentido não torna uma injustiça aceitável.

O sentido nas respostas que oferecemos

Ao trazer essa leitura para nossa experiência, podemos pensar em tarefas que merecem dedicação, pessoas que precisam de cuidado e compromissos cujo valor ultrapassa a satisfação imediata.

Nem sempre isso envolve uma grande realização. Pode envolver cumprir uma promessa, acompanhar alguém ou concluir um trabalho que contribua para a vida de outras pessoas.

São aproximações contemporâneas a partir do livro, não uma receita universal. Cada pessoa precisa reconhecer as possibilidades de sua própria situação.

A obra de Frankl nos convida a perceber que a pergunta pelo sentido também pode ser respondida na maneira como vivemos, amamos e assumimos responsabilidades.

Que pessoa, tarefa ou responsabilidade nos chama hoje a oferecer uma resposta à vida?

Fontes e referências

  • FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. PDF consultado sem dados editoriais completos identificados. Primeira parte: episódio da lembrança da esposa e seções “Perguntar pelo sentido da vida” e “Algo está esperando”. Parte dedicada à logoterapia: “Sentido da vida”, “A essência da existência” e “O sentido do sofrimento”. Citação de Nietzsche verificada em Frankl, com a grafia da edição consultada; não houve consulta direta à obra de Nietzsche.

Imagem

Viktor Frankl, 1965. Foto: Prof. Dr. Franz Vesely / Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0 DE. Adaptação: redimensionamento, conversão para WebP e adição de margens laterais. Versão adaptada disponibilizada sob CC BY-SA 3.0 DE.

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