Fio de Ariadne

Transtorno e transtorno

Recebo no consultório, pais e mães com queixas muito parecidas: O/A filho/a que apresenta baixa tolerância à frustração e contrariedade; reações de explosões agressivas; choros e birras; voluntariedade descabida; qualidade do sono prejudicada; dificuldade nas relações com seus pares e também nas relações com a autoridade, em casa e na escola. Chego a ouvir do adulto à minha frente, que não dá conta da criança.

Não gosto de rótulos em qualquer ser humano, afinal, ele é um processo contínuo de aprendizagem nas suas relações, e por isto, acredito que algo que não está bem hoje, pode perfeitamente ficar ajustado amanhã. Claro que é necessário o devido cuidado, muita observação e estimulação adequadas para que se alcance uma condição satisfatória para todos. De qualquer forma não se pode rotular qualquer desvio como Transtorno.

Os Transtornos emocionais/psiquiátricos são todos aqueles que trazem um desajuste no cotidiano da pessoa, seja ela criança, jovem, adulto, ou até mesmo o idoso. O Transtorno está relacionado à situação estressante, gerando desequilíbrio nos neurotransmissores, o que exige medicamento e acompanhamento profissional.

Voltando à criança, podemos dizer que a criança perturbada encarna em si a inadequação ou loucura familiar.

O que vemos na criança, uma espécie de mensageira de uma verdade encoberta, e/ou velada pela família. A criança manifesta aquilo que é guardado a sete chaves pela família. Muitas coisas não são ditas, apenas sentidas, no seio familiar. A criança por sua vez, capta o clima, e manifesta ou projeta aquilo que por algum motivo está latente nas relações familiares.

O que se sabe é que aquilo que está alienado no/a filho/a, muitas vezes são sintomas do adulto que por algum motivo não pode ou não quer manifestar, e a criança apresenta comportamentos agressivos que nem ela e nem o adulto conseguem lidar.

Primeiro devemos ter em mente que a agressividade faz parte do instinto de todas as espécies, e nós humanos não fugimos à regra.

Há os que, no processo de desenvolvimento, aprendem a lidar e cuidar de sua agressividade, e há os que por algum motivo, não conseguem. Não conseguem não porque são “doentes”. Muitos não o são, apenas estão doentes por não terem recebido a aprendizagem adequada de como lidar com sua agressividade.

Então, podemos dizer que nem toda agressividade é um transtorno, e nem toda criança precisa tomar Ritalina.

Nem toda birra é agressividade, ela pode ser uma forma de chamar a atenção, uma forma da criança se comunicar e dizer que algo não está bem para ela.

Nem toda insônia ou sono interrompido significa terror noturno ou algo do gênero.

Nem toda voluntariedade é egoismo, pode ser que a criança tenha sido estimulada a ser o centro do mundo familiar, e aí ela entende que sua vontade deve prevalecer em todos os lugares, sempre.

Nem toda explosão agressiva é um Transtorno, pode ser só uma manifestação equivocada de como a criança aprende a reagir quando contrariada ou não atendida imediatamente.

Enfim… toda reação agressiva infantil é um transtorno para o adulto, mas nem sempre é um Transtorno patológico. Quando houver dúvida ou insistência em determinados sintomas, merece uma boa avaliação profissional, um olhar mais apurado não só pelo profissional que faz a avaliação, mas principalmente por parte dos pais.

Insisto e repito: criar filhos até que é fácil, basta fazer as vontades da criança. Já educar filho, é difícil e trabalhoso.

Meus queridos leitores, educar filho dá trabalho sim. Exige do adulto, requer atenção, carinho, orientação, dizer não quando necessário, colocar limites, ser firme sem ser autoritário, exige tempo do adulto que hoje em dia vive assoberbado com muitos afazeres…

Filhos são dádivas que recebemos para aprendermos com eles a sermos pessoas melhores, aproveitemos a oportunidade.

Maria do Carmo M.B. Torres

Junho/2019

 

 

 

 

 

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