Fio de Ariadne

O REINO DESENCANTADO

Num reino não muito distante, funcionava exatamente como tantos outros reinos:

No mais alto da mais alta montanha ficava o palácio de um Reino Encantado e lá moravam os palacianos, sempre os mesmos, e para não dar muito na cara, vez por outra mudavam de cargo e assim acreditavam demonstrar seriedade e ética nos seus afazeres.

O povo, sempre a maioria, morava ao pé da montanha, sem preparo algum para escalar tal grandeza. Alguns até conseguiam. E os que conseguiam, aprendiam rapidamente o ofício de palaciano do poder e esqueciam-se de suas origens.

Os que se mantinham nos vales e colinas, sempre a maioria, trabalhavam incessantemente. Pagavam altos tributos com a justificativa de receberem de volta serviços bem prestados. E este era um povo de boa fé! Povo crédulo, quase ingênuo!

Sem tempo e condições para pensar e entender a engrenagem da coisa, continuavam a trabalhar e recolher altos impostos que vinham embutidos em todas as mercadorias e serviços.

Os serviços básicos, conforme o prometido por inúmeras vezes pelos palacianos, deveriam ser retornados ao povo em forma de Educação, Saúde, Transportes, Moradia, Estradas….

Serviços que garantiriam o mínimo de dignidade, eram na verdade precariamente retornados para aquele povo cansado. Serviços sucateados, com pessoal despreparado ou desvalorizado para seus atendimentos.

E o povo? Oras, o povo…

Este serve para garantir o Sistema estabelecido e constituído dos palacianos, não é mesmo?

Apesar de toda esta indignidade naquele reino, o povo era de muita fé. Rezava muito e entendia que seu sofrimento era vontade de Deus, e porque lhe apresentaram um Deus bravo, punitivo, rancoroso, e então o povo sentia-se temeroso, e quanto mais trabalhava mais pagava tributos, numa proporção beirando à imoralidade.

E a que se destinava os valores dos altos tributos, já que não eram retornados na proporção devida? você deve estar me perguntando, caro leitor…

A resposta é simples.

Enquanto o povo trabalhador cansado e pagador dos altos impostos continuava sua sina sinistra, havia no alto da montanha um grupo de pessoas ordinárias, todas com cara de ratos famintos, que se serviam em banquetes nababescos, viagens na primeira classe porque não eram obrigados a se misturar com o povo, calçavam e vestiam do que havia de melhor nas lojas de grife, locomoviam-se em automóveis de luxo, quando não em helicópteros, inúmeros serviçais, afinal eram a elite… Uma verdadeira farra do boi. E tudo financiado pelos cofres públicos!

Já o povo bobinho, além dos impostos para a Saúde, pagavam assistência médica particular acreditando que aquilo lhe dava algum Status. TSC, TSC, TSC…Pagavam duas vezes, os inocentes.

O dinheiro destinado para a Educação? era convertido em escolas mal conservadas, sucateadas, estrutura deficitária, com professores desvalorizados e desrespeitados inicialmente pelo sistema, e  em consequência seus usuários apenas projetavam aquilo a que assistiam. E quem conseguia, pagava para seus filhos caras mensalidades escolares em escolas que prometiam boa formação com a chance de um dia virarem palacianos.

Os recursos para as Estradas? Oras, oras, oras… As estradas melhor conservadas eram as  privatizadas, vejam vocês. Pagavam duas vezes novamente aquele povo bobinho.

Transporte público? Como fazer com o transporte público???? “Ah, podemos lançar campanhas publicitárias para incentivar o desejo de um carro particular, pensavam os poderosos, assim o povo crédulo e de tãããããão vaidoso nem se lembrará do transporte público” e pagarão altos impostos nas mercadorias e combustíveis. Podia-se deixar de cumprir entrega de estações de metrô, de ônibus mais modernos, o povo nem perceberia, estava anestesiado no seu carrinho novo.

E assim era neste reino encantado… E como era feito todo este encantamento? Você deve ainda perguntar?

Fácil, é só colocar o próprio povo brigando entre ele mesmo. Os palacianos se encarregam de instigar as discórdias.

Quanto maior o escândalo, melhor! O povo ficará horrorizado, discutirá, esbravejará, mas… olha o mas… “continuará nos mantendo no poder. O nosso poder será garantido aqui no alto da montanha”.

E com o promessa de Reino encantado, as autoridades que de autoridade nada entendiam a não ser o autoritarismo disfarçado com tapinhas nas costas, uma ou outra lei no melhor estilo “cala a boca ou sossega leão” os palacianos iam se mantendo.

Só que no mundo tudo flui, nada é estático, nada é permanente…

E naquele reino encantado não era diferente. O povo anestesiado começa a sair de suas caixinhas já que algum palaciano mais desavisado resolve, através de ameaças subliminares e opressivas, dizer ao povo do que ele, palaciano é capaz. E o tiro sai pela culatra.

E como o inconsciente coletivo está aí, o povo cansado, pagador de impostos e reprimido entendeu que ele também tem poder.

Até que um dia…

Daí fica por sua conta, meu querido leitor.

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