Fio de Ariadne

Propaganda é a A/L/R/MA do negócio!

O reino do Butão é um pequeno país encravado na cordilheira do Himalaia. Sua população é de 800.000 pessoas que vivem em contato direto com a Natureza e usam os bens materiais apenas como um instrumento para alcançar o conceito de felicidade. Uma característica da sociedade butanesa é que ela utiliza um parâmetro diferente da maioria de outros países. Lá o foco é a Felicidade Interna Bruta, e não o PIB (Produto Interno Bruto) ou o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Diz-se que é o país com maior taxa de felicidade por metro quadrado.

E o que podemos entender por felicidade? Existiria uma relação nos conceitos de felicidade oriental e ocidental? Material e espiritual?

Vamos observar alguns fatos.

Vivemos em um plano da existência que precisa de duas asas: a asa material e a asa espiritual, conforme explica Ram Chandra (*). Para seguir em frente precisamos agitar essas duas asas simultaneamente.

A asa material é representada pelo conjunto de atividades relacionadas ao aspecto físico, tal como a produção de bens, para satisfazer as necessidades de sobrevivência, segurança etc. Um fato que existe desde os primórdios do aparecimento do ser humano na Terra. Com o tempo, as pessoas e as coisas foram evoluindo das cavernas, se sofisticando e eis que, como no filme “2001-Uma Odisséia no Espaço”, do Stanley Kubrick (não deixem de ver, mesmo sendo ele de 1968), o Homem se encontra num clima de aparente bem estar material, até surpreendente. Vivemos num estágio de grande consumismo. Numa máquina complexa, onde nenhuma engrenagem pode falhar sob pena do caos se instalar na nossa vida.

Parece que essa máquina monstruosa não pode parar nunca, senão voltaríamos para as cavernas.

Bem, é essa visão e filosofia que anima os experts em economia de mercado. As fábricas e as lojas não podem parar. Todo mundo precisa comprar coisas, se não a cadeia produtiva vacila e… ai de nós!

Um grande aparato é criado para manter a cadeia produtiva: investimentos, planejamento, idealização dos produtos e serviços, tecnologia da informação, fábricas, escritórios, marketing e propaganda, veículos de informação, pontos de venda, telemarketing, logística etc. etc.

Para azeitar a MÁQUINA, é preciso descobrir (ou mesmo inventar/criar), novas necessidades (leia-se desejos), mesmo que sejam supérfluas ou inúteis.

Como entusiasmar as pessoas para consumir esses bens materiais? Como estimular seus desejos lembrando-o que um carro que tem tantos CVs é melhor do que um menos potente? Como fazê-lo esquecer que o trânsito nas cidades muito populosas não anda a mais de 80 km por hora, com engarrafamentos constantes?

Surge então um instrumento poderoso: a propaganda. Alguns a chamam de ‘a alma do negócio’. Alguns entusiastas defendem a idéia de que ela não cria necessidades novas, apenas alerta o consumidor de que ele será muito mais feliz comprando o novo modelo de carro, o novo modelo de celular, a TV tamanho gigante, o frango mais tenro e macio etc. etc.

Ela pode ser também uma arma de dois gumes (ditado antigo, mas para quem se arrisca a um retorno no tempo… ainda é compreensível!).

Toda a ‘cadeia produtiva’ se regozija com crescentes índices de produção e venda. A propaganda é mesmo a alma do negócio!

E para quem está no outro lado da cerca? É compreensível que sinta essas mesmas ‘necessidades’ tão humanas despertadas diante de tantas maravilhas!

‘Do outro lado da cerca’ significa um segmento da sociedade para a qual não há condições ‘civilizadas’ para acessar aquilo que a propaganda despeja no mundo, como num sonho!

É aqui que ela deixa de ser a ‘alma’ (um conceito muito nobre e elevado, em outros contextos), e se torna a ‘arma’do negócio!

Sabemos que a indústria de armamentos é um dos ramos mais sólidos e lucrativos do mundo! Pessoas e nações se abastecem desses produtos, periodicamente, sem necessitar nem mesmo da intervenção direta da propaganda. Quietinha, esta se traveste de ‘ama’, que azeita a máquina produtiva, que alimenta uma sociedade que perdeu o senso de dignidade e não dá atenção ao verdadeiro objetivo do ser humano nesta terra. Que pode mesmo, entre mil coisas, até ser verdadeiramente feliz.

Dessa forma, a asa material acaba tendo mais energia que a asa espiritual. Assim, o homem como um pássaro doente, não consegue bater as suas duas asas, e não levanta vôo. Fica à mercê dos predadores. O homem não sai de sua condição de animal primitivo e termina por se canibalizar.

Então, onde está a felicidade tão procurada? Alguém pode sinceramente se sentir feliz, quando a infelicidade o rodeia? Temos alguma saída? Sem dúvida, a solução está no próprio problema. Vamos fortalecer a asa espiritual. Sem necessidade de propaganda. A espiritualidade autêntica age de coração para coração, e apenas desvela os valores que a materialidade desmedida desvirtuou e instalou nos corações.

Então, você pensa em aumentar tua taxa de felicidade por metro quadrado? Já descobriu um caminho?

José Luis Cardieri

(*) Ram Chandra nasceu em Shahjahanpur, Índia, em 1899. Era conhecido por todos como Babuji. Simplificou os procedimentos clássicos do Raja Yoga para um sistema que denominou Sahaj Marg (Caminho Natural), hoje disseminado pelo método Heartfulness. Fundou a Missão Shri Ram Chandra em 1945, em honra do seu professor, homônimo. Escreveu diversos livros, como Rumo ao Infinito, Realidade ao Amanhecer, A Eficácia do Raja Yoga, entre outros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s