Fio de Ariadne

VIVER!

O ambiente, apesar de claro, arejado e limpo,  não é dos melhores e nem mais agradáveis, já que estamos falando de um centro hospitalar.

Na recepção há muitas pessoas, todas aguardando o seu veredicto particular, eu penso…

Meu marido é chamado. Me dá um aperto grande na garganta, um bolo no estômago, a língua seca. Sintomas de ansiedade, eu sei bem…

Entramos, o médico conversa um pouco, pergunta uma coisa e outra enquanto abre os exames e a biopsia, e fala aquilo que eu já sabia mas não acreditava ser possível ou não queria acreditar: Câncer malígno no intestino. Blá, blá, blá, blá, blá… e mais explicações…

Já não ouço mais nada, mas preciso ouvir, preciso estar presente. Meu pensamento insiste em viajar por outros lugares, pensar em nossas vidas, em nossa família, em nossas meninas. Tudo tão difícil, tão dolorido, tão intenso.

“… hoje há muitos recursos, a medicina está muito avançada” ouço o médico dizer “o caminho daqui para a frente será longo, passará por baterias de exames e especialistas antes mesmo de se tomar uma definição de procedimentos”.

E assim foi: O ano de 2017 foi de muitos exames, médicos, tratamentos, cirurgia, mais tratamentos, e mais médicos e mais exames, bateladas deles… Quimioterapia, Radioterapia, hoje até sei a diferença de um e de outro rsrs. Mudanças consideráveis como o emagrecimento acentuado, o definhamento, e por que não dizer a tristeza, o medo, a carência???

O processo não foi fácil, principalmente no início. De minha parte noites mal dormidas, outras tantas perambulando pela casa, o medo tomando conta, a ansiedade, a angústia, o sentimento de injustiça, o choro, não sou de chorar, até que, tropeçando em mim mesma me dei conta que se assim continuasse infartaria, o que dificultaria e muito o andamento das coisas em casa.

Numa madrugada, já num processo louco de desespero, sozinha na sala, respirei profundamente por alguns bons minutos, tomei um copo de água, entrei em meditação. Uau, consegui meditar…

No dia seguinte propus à mim mesma e à família vivermos um dia de cada vez. Não sei o que será e como será o amanhã, porque o amanhã está por vir. Tenho apenas o hoje como presente e é nele que vivo.

Minha experiência tão de perto com a doença tão grave como o Câncer, me faz refletir sobre a diferença entre viver e sobreviver. Talvez tenha sobrevivido durante os anos sem tê-los vivido exatamente.

Viver é tão simples e mágico. Estou aqui, agora, respirando, escrevendo, com a oportunidade de escrever como me sinto, hoje já organizei minha casa que tanto gosto, já organizei minhas contas, enfim… são tantas as pequenas oportunidades que tenho para me sentir viva e não mais uma autômata fazendo tudo mecanicamente. Muitas vezes fiz tudo no automático, sem nem pensar no que estava fazendo ou sentindo.

O bacana é que estamos até fazendo alguns planos para o futuro, e do nada, como uma Fênix, meu marido insiste em ser Fênix desde que o conheço é assim: ressurge das cinzas… E eu?

Sou a Fênix fêmea! Uma Fênix agradecida que entende a vida de forma mais aprofundada e mágica.

 

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