Fio de Ariadne

CLUBE DO BOLINHA

As brincadeiras são o aspecto lúdico de atividades consideradas sérias. As nossas crianças físicas, gente com pouca idade, e as nossas crianças psicológicas gostam de imitar e satirizar aquilo que é considerada coisa séria.

Assim, o “Clube do Bolinha” é uma sátira infantil ao machismo praticado seriamente pelos adultos. O conceito de machismo parece inerente à cultura latina. Pelo menos no Brasil, tudo que lembre dominação, prepotência, preconceito, egocentrismo e tantas outras formas de colocar o gênero masculino em evidência, predominância, está em quase todos os aspectos da vida deste país.

Mas as estatísticas mostram o predomínio do gênero feminino na formação ou composição do povo brasileiro. Mais de 50% da população é formada por mulheres. Mas uma parcela diminuta delas tem lugar nos vários segmentos da sociedade. Poucas mulheres nos escalões do Governo. Poucas mulheres em cargos diretivos expressivos nas corporações.

E um fato singelo, pouco notado, porém, expressivo: pouquíssimos nomes de mulheres são usados para identificar bens públicos, como ruas, avenidas, edifícios administrativos, e assim por diante.

Não precisamos vasculhar um guia de ruas de uma cidade como São Paulo para checar isso. Simples e direto: você já observou quantas das milhares de vias públicas tem nomes de mulheres?

Mais fácil ainda de identificar o machismo predominante ao ar livre é dar uma olhada nos túneis da Via dos Imigrantes. Na pista descendente, dos quatro túneis, todos têm nomes de homens. Alguns conhecidos, outros nem tanto. Por que esses cavalheiros mereceram esta homenagem? Bem, quem manda colocar esses nomes provavelmente são homens empoderados na organização responsável por esse trabalho, um exemplo de Clube do Bolinha.

E na pista ascendente? É ainda mais divertido contar: dos vários túneis (com uma ‘vaga’ ainda em aberto), todos foram batizados com nomes de personalidades masculinas. Alguns bem conhecidos, outros desconhecidos, a não ser para os encarregados da tarefa de nomear esses bens. Nem uma personalidade feminina! Nem engenheiras, nem médicas, nem artistas, nem professoras, nem mães, nem avós etc. etc.! Nada!!!

Outro dia ouvi uma entrevista da diretora de uma empresa de publicidade que tem um projeto para atenuar essa discriminação. Não me lembro do nome dessa organização, mas ela está trabalhando para apresentar um projeto para ser encaminhado à Câmara dos Vereadores da cidade de São Paulo, obrigando os nobres vereadores a equilibrar a distribuição de nomes a serem concedidos aos bens públicos. Isso na cidade de São Paulo. E no restante do Brasil? E nas concessionárias de serviços?

Talvez as mulheres nem estejam interessadas nessas homenagens, bem típicas dos homens criadores de clubes do Bolinha. Quem sabe elas, no coração, até sorriem das bravatas de seus filhos, maridos, pais, avós, netos, amigos etc. Talvez até achem graça diante de tanta exibição de poderio, soberba e vaidade.

Quando, conforme a pesquisa dessa agência, alguma mulher é homenageada, é porque é esposa, ou mãe, ou amiga de algum figurão. Não porque sejam reconhecidas pelos seus próprios méritos pessoais.

Enfim, para que nos preocuparmos com esse detalhe de dominação masculina? Talvez outros assuntos mereçam mais destaque, como assédio sexual, feminicídios, rebaixamento de salários, assédio moral etc.etc.

Comprovado: o machismo está nas ruas!!!

José Luis Cardieri, colaborador frequente e muito importante a este espaço.

 

 

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