Fio de Ariadne

APREÇO

Mais do que de costume, tenho pensado muito no meu pai. É um misto de saudade e tentativa de me lembrar das lições que ele nos deixava a cada fala, a cada gesto, a cada escolha… Sem ser soberbo, ele era muito orgulhoso de si mesmo, de sua origem, de sua família.

Meu pai era uma pessoa ímpar em vários aspectos. Costumava dizer que a casa mais linda do mundo era a sua, simplesmente porque era sua. “O melhor carro que existe é o meu, porque ele é meu”. Dizia sorrindo e estufando o peito, e olha que o último carro era um simples fusca branco, de placa 7808. Na época eu não entendia direito o que ele queria realmente dizer com isto.

Tinha o que chamamos de apreço às suas coisas. Apreço é o mesmo que valorizar, que apreciar, que cuidar.

Esta semana me ocorreu algo que me fez lembrar tudo isto. Estava em meu quarto lendo, quando ouvi uma barulheira danada de coisas caindo, era a secretária limpando a sala. Chamei-a e corri para ver o que havia ocorrido.

Entre tremores, desculpas, um choro contido, mostrava-se desapontada consigo mesma e, desajeitada não sabia o que dizer.

Então eu disse por ela: “Você fez intencionalmente? Não, eu sei que não. Acidentes acontecem”.

A minha tentativa de aliviar piorou as coisas, ela ficou mais sem graça, afinal era um pote de cristal que havia sido espatifado no chão, e por descuido dela, e se eu quisesse descontar, ela entenderia.

Foi então que caiu a minha ficha:

Sim, um pote de cristal tem um valor financeiro, ou até estimativo, esse eu ganhei nem sem bem ao certo de quem, de alguém que certamente já morreu… Então o valor é maior?

O pote de cristal que tem valor financeiro me serve para que, além de alojar algumas pedras e só? Não quero com isso dizer que não ligo para as coisas, pelo contrário, cuido tanto que elas duram muito nas minhas mãos.

E aquela mulher à minha frente, quem é ela? Mãe de duas filhas, mora longe, bem longe, vida sofrida. Vem em casa lavar banheiros, a cozinha, limpa os vidros, cuida da casa, da louça, deixa tudo tão limpo e organizado. Qual é o seu valor?

Satisfeita, entendi o apreço que papai nos ensinava.

Apreço é você cuidar daquele/daquilo que gosta, é valorizar o que se tem, é apreciar e contemplar enquanto se tem. O resto, ah o resto, é puro apego.

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