Fio de Ariadne

DESCASAMENTO

No último final de semana encontrei uma conhecida que há muito não via. Uma grata surpresa.

Costumo ser boa fisionomista, mas incrivelmente não a reconheci de imediato.

Estava mais bonita, mais bem vestida e com ar alegre, mais jovial. Os cabelos muito bem cuidados, maquiada, unhas bem arrumadas…

Para celebrarmos aquele encontro e colocarmos o papo em dia, nos sentamos para um café que regava os assuntos que surgiam. Conversamos desde costura, artesanato, filhos, trabalho e vida pessoal. Foi quando ela abriu algumas das suas particularidades.

Sorrindo me disse; “Estou tão bem agora…” e continuou: “O descasamento me fez muito bem”.

Como assim, um descasamento faz bem? Uma separação via de regra é sempre muito dura com os envolvidos. E nem faz tanto tempo assim a sua separação…

E então ela relatou os anos de solidão no seu casamento, que apesar da liberdade existia a dureza da escravidão na sua vida, escravidão imposta por ela mesma. Da falta de personalidade e identidade que tomou conta dela. Dos equívocos por ela cometidos referentes aos papéis num casamento. Que ao longo dos anos ela foi se perdendo e se deixou perder para privilegiar a existência do outro, o marido.

Que o amor por ele era tão maior que acabou esquecendo-se de se amar.

E com o tempo tornou-se ou sentiu-se tornar-se um farrapo humano. E como farrapo sentiu-se desprezada, ultrajada e descartada com a descoberta das traições do marido. E só assim conseguiu acordar de sua anestesia particular.

Tal descoberta a fez se enxergar, foi o que a impulsionou a buscar forças e sair dos seus farrapos e enfrentar-se a si mesma. E por fim, ela entendeu que não era ele quem a traía, mas ela que se traía, afinal, de verdade ela não era aquilo a que tinha se transformado. E foi assim que puxou a responsabilidade da sua vida para ela mesma.

Pois é, ser humano se acostuma com tudo na vida. Até com o sofrimento nós nos acostumamos, a ponto de ser este uma grande zona de conforto, e sem ela não sabemos mais quem somos. O descasamento passa a ser muito duro quando não se consegue libertar-se das zonas de conforto construídas.

 Na verdade o descasamento passa a significar sofrimento quando uma ou as duas partes não conseguem soltar aquilo que foi construído com o outro, e nem estamos falando nas instâncias materiais e sim nas bases da personalidade do casamento, até o casamento tem sua personalidade. Falamos das neuroses no e do casamento. Falamos das dependências construídas, das cobranças e obrigações impostas veladas e mutuamente. Falamos aqui das fragilidades de cada um que se misturam e se escondem e se disfarçam no casamento.

Mas quando cada um pega realmente o que é seu e sai da relação a dois com o genuíno sentimento e reconhecimento de que este ciclo se fechou, mas que é ele o grande responsável por muito aprendizado, então novos ciclos de vida se avizinharão e poderão ser abertos.

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