Fio de Ariadne

A PEDRA

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade

Hoje, mais do que nunca, sei o que é ter uma pedra no meio do caminho

Oh pedra, nem importa o teu tamanho, forma, textura, consistência, basta somente a tua existência. É ela, a pedra no meio do caminho, a que faz esquecer e ainda faz lembrar…

É a protagonista da história, da história tão presente. Tudo passa a girar em torno dela, cada movimento pode comprometer a pedra no meio do caminho, e incertas são suas conseqüências.

Uma pedra no meio do caminho pode representar um problema, uma dificuldade que ora desafia ora ameaça, como pode ser no sentido literal: Uma pedra física, geográfica, que está ali no meio do caminho a atrapalhar, a apontar, a avisar, a sinalizar aquilo que de alguma forma tenta-se em vão esconder, mas insiste em aparecer, e é aí que os mais íntimos sentimentos e mágoas são cristalizados.

Drummond! Não sei qual era a tua pedra mas, tal como a minha, poderia até ser um simples cálculo renal. Bem menos poético é verdade, mas é uma pedra no meio do caminho que alerta a condição de qualquer mortal. Uma condição que de tão frágil, põe a acionar a observação sobre a vida, e então, lembrar da própria existência.

Agora, já sem o tormento lancinante da dor ou qualquer influência de medicamentos, consigo observar a pedra em sua inteireza, e me vem a constatação de quantas bobagens guardadas, quanto lixo amontoado, quanta poluição que entopem as águas de todo o sistema interno… E de tão sofrido possuí-la, obriga a quem a tem a tomar um rumo e decidir qual caminho seguir, e desapegando-se, colocá-la em movimento e expurgá-la da existência.

Um comentário em “A PEDRA”

  1. Drummond sabia das coisas…
    Isso mostra a fragilidade do ser humano em relação aos acontecimentos naturais… Imagine que a pedra no caminho da natureza somos nós e nossas ações antrópicas… será que ao nos tornarmos a pedra no sapato do planeta seremos depurados por isso? …

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